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Os caminhos da fritura…

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

      Há mais de dez anos trilho o caminho do artista-educador, alguém que artisticamente atua como guia para o fazer musical; estes foram anos de reflexões e descobertas, erros e acertos, êxtases e frustrações, e antes de tudo de constantes mudanças de paradigmas.
     Acho fundamental que sejamos sempre questionadores, e acho que o músico artista deve questionar as tradições e dogmas da qual nossa arte está repleta (muitas datando da França pós revolução). Estas tradições, dogmas e paradigmas muitas vezes não dialogam com nossa realidade e estão presentes no discurso das instituições técnicas e acadêmicas de ensino musical.
    Naturalmente eles se manifestam em padrões de pensamento antiquados, hábitos mentais inconscientes, normas profissionais pouco questionadas, e chavões vazios repetidos como verdades que frequentemente tornam o ensino e a prática musicais um processo de “anti-descoberta”, onde somos instruídos a ignorar sensações, intuições e desejos em prol de um conhecimento fechado e preconcebido: uma receita.
    Não existe receita para uma prática musical coletiva livre, sincera e criativa, é algo que exige sensibilidade, disponibilidade, entrega, paixão e coragem, coisas que nenhuma metodologia é capaz de substituir. No entanto existem caminhos, e existe muita gente constantemente investigando-os como quem investiga sua própria essência, o Fritos é pra mim um lugar onde essa investigação sempre acontece.
    Apesar de não participar do grupo na época em que Fernando Barba e Stênio Mendes conduziam o grupo, tenho certeza de que o ambiente e a filosofia que sustentam nossos encontros até hoje tem muito a ver com essas duas figuras, e a sua maneira de enxergar e guiar o fazer musical.
    Desde 2009, quando me juntei ao grupo, vejo cada um dos membros contribuindo para o que eu considero uma busca coletiva pelo fazer musical com o qual sonhamos. Nem todos conduzem propostas mas todos participam da construção desse caminho do grupo rumo ao que nós ainda não descobrimos.
    Meu mestre Samuel Kerr fala da importância de desenvolver uma escuta interior, relacionada à escuta anterior: “tudo o que você aprendeu a escutar, ao longo de sua vida: instantes retidos na memória”, à escuta exterior: “tudo o que você tem ouvido ao seu redor” e à escuta posterior: “tudo o que ainda não soa, mas que você já escuta! Sonhar, inventar, pesquisar…”. (trechos de ensaio do Maestro Samuel Kerr).
    Pra mim o Fritos é um constante e imensamente prazeroso exercício de escuta, onde usamos nossa escuta interior, exterior e anterior, escutando quem somos, o mundo em que vivemos e as trilhas deixadas pelos que nos antecederam, para encontrar o nosso fazer musical; e também nossa escuta posterior, escutando um mundo que ainda não soa, mas que já escutamos dentro de nós, para contribuir com a construção de um fazer musical diferente, junto aos nossos mestres e parceiros que escutam na mesma direção.
    Pessoalmente, quando me escuto hoje dentro do grupo, tentando descobrir o que de fato estou fazendo ali, ouço a sensação clara e definida de que antes da técnica, antes do prazer estético, antes dos desejos individuais, o Fritos tem a ver com a felicidade de estar junto ao outro, uma felicidade única que só sentimos enquanto pesquisamos e vivemos juntos a música corporal.

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Pra Não Ficar Maluco

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012


     Família sempre foi a coisa mais importante pra mim, tanto no seu sentido usual, envolvendo os laços de sangue, quanto no sentido estendido, onde todos fazemos partes de uma mesma família. 

     Na minha vida fui afortunado com o privilégio de participar de algumas, e a Devir sem dúvida foi uma das mais importantes. Nessa 3a feira, 7 de fevereiro perdemos um pai prematuramente. Ver toda a família Devir reunida no seu enterro me fez sentir tanta saudade, me pôs a pensar em quanto aprendi com ela e com seu gênio inspirador, o grande Mauro Martinez dos Prazeres.

     Na Devir experimentei o que é trabalhar com pessoas queridas dando tudo de mim para não deixá-las na mão; descobri que meu jeito de ser tinha seu valor e podia somar e contribuir à um bem comum; construí relações humanas que carregarei comigo pra sempre, inclusive meu grande amor; cresci imensamente como ser humano; recebi amor, carinho, apoio e orientação; e aprendi, especialmente com o Mauro, que era permitido ser adulto e continuar sonhando.

     Me disse ele uma vez "Você está cercado de pessoas que mudaram o mundo, o que é que você está esperando?"

     Quantos chefes te encorajam a querer mudar o mundo...?

     Demorei pra descobrir o quanto ele estava certo... por muito tempo pensei que minha saída da Devir e minha incursão no mundo da música tinha sido uma maneira de escapar do mundo dos rpgs, quadrinhos e jogos, que não passavam de ficção e fantasia, para experimentar as coisas de forma mais direta, mais visceral, mais real, através da música.

     Besteira!! Descobri que a música é tão real quanto uma história do Batman, e que fantasiar e sonhar talvez seja hoje mais essencial do que nunca na história da humanidade, e pra isso o Mauro fará muita falta...

Mauro, nunca me esquecerei do tempo que passamos juntos, das noites musicais na casa do Dudu, das reuniões esfumaçadas, das conversas de corredor... e também nunca me esqueço da sua canção, que você me ensinou e me pediu pra cantar, lembro que você queria que eu fizesse do meu jeito, e estou sempre procurando esse jeito...

     Batizei de "Pra Não Ficar Maluco", a letra e música são do Mauro, e o arranjo é meu, dentro dessa minha pesquisa de texturas vocais. Como tudo que posto aqui, trata-se de uma gravação caseira de um trabalho em desenvolvimento que ainda pode melhorar bastante mas esse é o resultado até agora. Queria muito dividir isso com todos que conheceram o Mauro e com todos que não tiveram esse privilégio... é só apertar o "play". 
(Atentem para as músicas incidentais, o tema de StarTrek e a música do Fausto Fawcett que era cômico flagrar o Mauro cantando)




Não sei, não vou, não fico,
E sem saber eu grito,
Pra ver se eu mesmo escuto,
Pra não ficar maluco.

Só sei que nada entendo,
Penso e não compreendo,
Porque eu nunca consigo,
Estar em paz comigo.

Então parado eu corro,
E estando vivo morro,
Na dúvida, na loucura,
Na prisão escura, que eu sei que sou pra mim.


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Sendo um "Artista Educador"

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

    "Artista Educador é um artista praticante cujo ensino integra essa prática. Artistas Educadores não tem necessariamente diploma em licenciatura. Eles são exemplos de estilo de vida, disciplina, e habilidade. Eles transmitem tradições orais e da experiência pelo seu modo de pensar, enxergar e ser. Eles são educadores, no sentido mais verdadeiro da palavra (educar é um verbo composto pelo prefixo ex (fora) + ducere (conduzir, levar), literalmente 'conduzir para fora'), eles 'trazem pra fora' ao invés de 'empurrar para dentro'. Eles são guias, facilitadores, pontes para a criatividade. Artistas Educadores são ativistas sociais"

    Tina LaPadula, Arts Corps, Seattle

    "A prática do Artista Educador é mais desafiadora na música, em parte porque é tão oposta ao modo predominante pelo qual os artistas tem sido treinados há tanto tempo e em parte porque confronta tradições da disciplina musical. Como você verá em vários capítulos, tornar-se um bom Artista Educador em música inclui desafiar alguns padrões tradicionais de pensamento, alguns hábitos costumeiros da mente, e algumas normas profissionais pouco questionadas. Eu acredito que esse confronto não é só saudável, mas essencial. No entanto, ele torna as coisas mais difíceis para o músico do que para o ator ou dançarino. Pintores, escritores e artistas de outras mídias tem seus próprios desafios. Mas músicos, com seu enorme potencial, com demanda significante por bons praticantes, e com sua forma de arte lutando contra adversidades, são o foco desse livro."

    "Enquanto todo o bom planejamento e gerenciamento de grupo que você tem de manter faz uma enorme diferença, 80% do que você ensina é quem você é. De tudo que você ensina sobre as artes, o aprendizado mais profundo dos participantes vêm de observar o modo como você, o emissário das artes, pensa, ouve, fala, veste, cria significado, reage, descobre, lida com dificuldades, brinca, faz piadas, improvisa, e assim por diante.(...) Sua autenticidade enquanto artista é uma das suas maiores forças. Não sinta que você tem que esconder seu entusiasmo artístico, sua personalidade, suas habilidades, ou sua paixão pessoal, por trás de uma máscara de "professor". (...) Como um artista, é sua responsabilidade espiritual dar o melhor de si em toda oportunidade, e não simplesmente fingir. Porque eles percebem a diferença."

    Trechos do livro "The Music Teaching Artist's Bible" de Eric Booth (minha tradução)
    O conceito de que educar artisticamente é uma forma de arte ressoa como uma verdade que já existia em mim mas ainda não tinha sido expressa de forma tão clara. É como um alvará, uma permissão pra fazermos  o que já estamos fazendo ou tentando fazer, pra acreditar no que já acreditamos, e uma demonstração de que não estamos sozinhos. Não me sinto estimulado a trabalhar como educador se não dessa forma: como artista, com liberdade pra criar, pra expressar, pra ouvir, pra dividir, pra comungar, pra emocionar, pra divertir, pra amar,na verdade essa me parece a única forma sã não só de educar, mas de viver. Sempre com a consciência do grande privilégio e da enorme responsabilidade do papel que exercemos.

   Divido com vocês uma criação que vivemos juntos, eu e os queridos educandos do Quixote, no último encontro de 2011 do projeto Quixote, feita com os nomes dos 12 integrantes da nossa oficina de canto.


"As coisas que não tem nome são mais pronunciadas
 por crianças"
Manoel de Barros

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Criatividade

domingo, 28 de março de 2010

Vocês conhecem a TED? É uma associação sem fins lucrativos dedicada a "Ideas Worth Spreading", idéias que valem a pena, eles organizam conferências onde pessoas das mais diversas áreas (cientistas, artistas, ativistas, educadores, ambientalistas, etc) falam sobre assuntos e idéias pertinentes e transformadoras.

Vale muito a pena! Pra quem não fala inglês, várias delas tem legendas em português.

Enfim, estava um dia desses no site e assisti uma fala (assista nesse link) de Elizabeth Gilbert (escritora do best seller Eat, Pray, Love (Comer, Rezar, Amar)) sobre criatividade.

Tendo como exemplo a enorme expectativa sobre seu próximo trabalho, ela fala da pressão sobre o criador, da quantidade de mortes e suicídios e vidas miseráveis entre artistas criadores, da noção que aceitamos coletivamente de que criação e sofrimento estão intimamente ligados de alguma forma. Ela então chama a atenção para quão prejudicial e cruel é esse pensamento, e o quanto ele é psicologicamente perigoso para o próprio artista, e argumenta que nem sempre foi assim.

Na antiguidade clássica por exemplo a idéia era que a criatividade não vinha do ser humano, mas de espíritos divinos como o "daemon" grego  ou os "gênios" romanos que traziam inspiração aos artistas, a responsabilidade pelo sucesso ou fracasso de uma obra não era exclusiva do artista, mas do seu "gênio" também. A partir da Renascença, com o homem como medida e centro de tudo, surge o conceito de que o indivíduo é em si um gênio, a fonte de toda a beleza, genialidade e criatividade de sua arte, e segundo ela isso vem destruindo nossos criadores nos últimos 500 anos.

Pesquisando o processo criativo de artistas contemporâneos, ela encontra caminhos muito mais interessantes do que o do martírio do gênio solitário, cita exemplos de criadores que concebem a inspiração como vindo de fora de si, seu papel sendo captá-la e concretizá-la.

Para todo artista existem momentos de transcendência, onde algo acontece além do controle e compreensão, algo que podemos chamar de divino. O problema é o dia seguinte, quando acordamos e enfrentamos a realidade do mesmo ser humano de sempre, com medos, limitações e dificuldades, e ansiamos por aquele lampejo genial novamente.

O conselho de Elizabeth pra lidar com isso é não acreditar que esses aspectos extraordinários do seu ser vem exclusivamente de você, mas que eles foram emprestados para você por uma fonte inimaginável por alguns raros momentos especiais de sua vida, pra depois passar adiante.

O conselho dela é não tenha medo e continue comparecendo para sua parte do trabalho: escrever, dançar, cantar, atuar, tocar... se o seu "gênio divino" resolver aparecer e soltar algo fantástico na sua mão, ótimo, se não tudo bem, pois o divino também está presente no amor e teimosia humanos que nos fazem continuar comparecendo para fazer nossa parte todos os dias.

Desde Setembro de 2009 não coloco nada no blog, nenhuma produção ou experiência. Talvez por receio de postar algo menos inspirado do que já postei, talvez por não estar comparecendo para minha parte como deveria... O que está na gravação abaixo não veio de um dia particularmente inspirado mas de um esforço de dizer algo, mesmo sem saber bem o quê...
(começa com "música falada", depois "música cantada")

Improviso 28/03/2010

Trechos da fala de Elizabeth Gilbert:

"séculos atrás nos desertos do norte da África, as pessoas se encontravam para fazer música e dançar ao luar até o amanhecer, era sempre magnífico porque os dançarinos eram profissionais incríveis..., mas raramente, acontecia alguma coisa, e um desses bailarinos realmente transcendia, como se o tempo parasse, e o dançarino entrasse numa espécie de portal e ele não fazia nada diferente do que vinha fazendo desde mil noites atrás mas é como se tudo se alinhasse, e de repente ele deixasse de ser apenas humano, ele era iluminado de dentro para fora, e debaixo para cima, todo iluminado pelo fogo divino."

"E quando isso acontecia, naquele tempo, as pessoas sabiam do que se tratava e a chamavam pelo nome. Elas juntavam as mãos e cantavam, "Alá, Alá, Alá, Deus, Deus, Deus". Era Deus, entendem? ..."

"Mas a parte complicada acontece na manhã seguinte, para o dançarino, quando ele acorda e descobre que é terça feira, são 11 da manhã e ele não é mais um lampejo divino. Ele é apenas um mortal que está envelhecendo com joelhos estourados..."

Poema de Mario Quintana:

No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as
                                [únicas
que o tempo não conseguiu levar :

um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento...

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Primeiro passo.

domingo, 20 de setembro de 2009

Mês passado dei um primeiro passo num projeto pessoal que me interessa bastante: looping de voz. Faz um tempo que venho brincando com isso em casa mas nunca tinha feito ao vivo.

A idéia é simplesmente gravar minha voz várias vezes em sobreposição criando momentos musicais, quando canso dele apago tudo e começo outro. É algo que faço naturalmente improvisando, por enquanto não pensei em compor nada ou preparar algo de antemão, me sinto mais a vontade inventando na hora, mesmo porque ainda é algo totalmente experimental para mim.

É algo muito gostoso de fazer... por não haver quase nenhuma movimentação harmônica e por ser um diálogo meu comigo mesmo fica fácil criar esta textura com total liberdade. Uma vez pronta a textura base gosto de ficar improvisando melodias em cima.

A estréia foi no "Bazar Sarau Passa Lá em Casa" (http://bspassalaemcasa.zip.net), evento que a Miriam, minha mulher, organizou com 3 amigas, como elas são em 4 são as 4Four`migas...sério, é o nome do grupo delas. A Mi é a da direita.



Primeiro fiz uma horinha de violão e voz, que acabou sendo música ambiente, e depois comecei a brincar com os loopings, fiquei muito mais a vontade nesta hora, gosto muito da canção mas este tipo de proposta me possibilita uma liberdade vocal e criativa muito maior.

A reação do público foi interessante, apesar de não ser um show - as pessoas estavam ocupadas comprando ou conversando ou apenas passando pelo espaço onde eu estava - deu pra perceber o interesse e os vários comentários, pessoas observando e explicando a proposta à outros "ele tá fazendo a música na hora, vai gravando a voz uma em cima da outra" e tal. Pra uma primeira vez fiquei satisfeito com o resultado, agora é fazer e estudar mais e tentar apresentar pra outros públicos...

Gravei com meu laptop usando o "Sonar", o que me dava a possibilidade de em tempo real manipular os loops que queria ouvir ou não. Salvei alguns dos momentos que construí lá e juntei no arquivo anexo que vão ouvir a seguir.















Como resultado final é repetitivo mas quando fiz ao vivo não era porque a cada loop eu acrescentava coisas novas, o que parecia fazer com que as pessoas ouvissem o conjunto com outro ouvido, um ouvido cumulativo que ao final da criação reconhecia cada elemento da textura por te-lô ouvido no momento em que este foi acrescentado.

Depois que ficava pronto eu podia fazer várias coisas: improvisar em cima; manipular os elementos, mutando uns e deixando outros em evidência; excluir elemento por elemento e deixar só um sobre o qual eu construía outra textura ou simplesmente parar, apagar e começar outro.

Comentem!

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Ai que saudade de ocê

domingo, 6 de setembro de 2009



Conheci essa música de Vital Farias cantada por Geraldo Azevedo somente há uns 3 anos, quando Ed Bahia me apresentou; era uma música com a qual ele se identificava muito por ter trabalhado como caminhoneiro e ter vivido a situação que a canção descreve, a saudade que quem está na estrada sente da pessoa amada distante.
Ela me levou a mais tarde descobrir o tesouro da música de Vital Farias, Geraldo Azevedo, Elomar e Xangai pelo fantástico álbum "Cantoria", uma música que conjuga uma verdade e simplicidade próprias da alma regional brasileira com uma desenvoltura técnica vocal e instrumental, uma riqueza poética e uma expressividade na interpretação impressionantes, um disco lindo.

Conheci Ed Bahia em 2006, quando o departamento de cultura de São Bernardo fundou o grupo Balaio Brasileiro e me convidou pra ser um dos coordenadores do projeto, a idéia era juntar alunos que se destacaram nas oficinas culturais da cidade e formar com eles um grupo musical. De lá pra cá muito mudou mas o grupo continua, atualmente sou o diretor musical do grupo e participo cantando e tocando (mais informações no blog:http://www.balaiobrasileiro.blogspot.com/, veja também vídeos no youtube: http://www.youtube.com/watch?v=TxFYL5OqDhs&feature=related).

Ed era um dos percussionistas do grupo (com alfaia na mão) mas sua intenção real era cantar, ele compunha, tocava um pouco de violão e cantava; "Ai que saudade de ocê" foi a canção que ele sugeriu, que acabou entrando no repertório com ele cantando. A 1a estrofe da canção era meio declamada, cantada bem lentamente, sem pulso, bem livre... e o engraçado é que ele sempre se emocionava, as vezes chorava e não conseguia seguir a estrofe até o fim. Depois de algumas vezes virou uma piada interna do grupo: "será que o Ed vai chorar desta vez?" Ele se explicava, dizia que via a esposa na platéia e lembrava das tantas vezes que estava longe dela, na estrada, ouvindo a música que estava prestes a cantar... e aí não tinha como, chorava mesmo!

Ele era uma daquelas pessoas alegres, cheias de vida, de temperamento forte, se orgulhava da "nacionalidade" baiana (daí o nome artístico) e se envolvia emocionalmente em tudo que fazia, sua relação com música era daquelas fortes e diretas, tocava e cantava o suficiente para transmitir o que carregava o peito, sem maiores preocupações.
No dia 24 de Junho de 2009, Ed morreu vítima de um acidente na BR-381 em Pouso Alegre, ele estava a serviço, seu caminhão havia quebrado e ele estava no acostamento quando outro caminhão o atropelou.

Apesar de ele estar afastado do grupo há aproximadamente um ano, o choque foi grande, e agora que estamos num momento de renovação de repertório não poderíamos deixar de pensar em uma homenagem, "Ai que saudade de ocê" vai voltar ao repertório com outro arranjo, hoje fiz um trecho do arranjo vocal que o grupo cantará, gravei só com a minha voz e fiz uma montagem com alguns trechos de comentários do Ed Bahia gravados de shows. Não sei bem de que a arte serve nessas ocasiões, será que ela pode de alguma forma dar sentido a essas fatalidades estúpidas?
De qualquer forma gostaria que ouvissem abaixo. Tenho certeza que o arranjo vai ficar lindo, e o interessante é que já no ensaio me senti como Ed Bahia, incapaz de conter a emoção, cantando com a voz embargada pelo choro que quer sair.

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A música que queria sair

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Hoje passei o dia com aquela vontade de cantar, como se tivesse algo meio preso lá dentro; e cantar com conforto, com liberdade e com verdade, envolvimento é a melhor sensação do mundo pra mim. Não troco por nada!

Então porque eu fujo disto, porque não aceito esse desejo e invisto nisso, mesmo depois de pessoas como a Tuca da ULM e a Ithamara Koorax me darem todo o apoio. Sei lá! Acho que é medo, medo de ser artista de verdade, isso faz alguma coisa com a alma da gente que é meio assustador sabe, é mais confortável ensinar, coordenar, dirigir, etc... Fora que dá muito trabalho ser artista, não é trabalho de meio período.

Mas a frustração de não estar fazendo minha arte é um incômodo constante, é aquele algo preso no peito, que quando sai parece que dá um alívio, parece que tudo faz mais sentido e a gente lembra pra que mesmo veio nesse mundo.

Hoje consegui pôr pra fora, e gravei um pedaço do que saiu, foi legal...

Mas antes fiquei um tempão eu e o violão, cantando as mesmas músicas de sempre que eu não aguento mais, não consigo tirar um pingo de vida de algumas delas. Aí enchi o saco, apaguei a luz e comecei a inventar umas coisas, viajei na intro da Procissão "meu divino São José...", achei uma voz abertona, bem de cultura popular sabe, e achei tão bonito, gravei pra conferir, não é que fica bem legal, me deu muita vontade de explorar mais isso, montar um repertório que tenha essa cara e mandar ver, tem a ver com o Blues, é aberto, raçudo, verdadeiro.

Aí percebi que por mais que eu seja apaixonado por música sofisticada, tem momentos que se eu não sacio antes minha necessidade básica de cantar algumas coisas mais fortes, mais diretas, parece que o resto não rola. Acho que este canto é a base do que vem depois, como se eu precisasse de um alicerce de uma música mais enraizada, mais de base, mais direta pra depois partir pra coisas mais sutis. Tipo matar a vontade de um canto pra fora, direto da alma pra depois partir pra outras viagens.

Sacar como é este processo pessoal para encontrar sua voz mais livre é muito importante e muuuuito pessoal sabe, tem mais a ver com estado de espírito do que com técnica vocal.

E ninguem vai te ensinar como chegar a determinado estado de espírito, é a gente que tem que encontrar o caminho, e acho que esse é o mérito do artista, todos temos coisas lindas pra mostrar guardadas e o artista sabe traçar o caminho na sua alma pra encontar e mergulhar nesse lugar, tudo na frente dos outros! É realmente como estar pelado.

Eu mesmo não fico, é muito raro acontecer, me escondo atrás de algumas coisas pra não me expôr tanto...

Mas enfim, depois de ter tirado o que podia do voz e violão, peguei o microfone e comecei a gravar vozes em cima de vozes, sem parar pra pensar em nada, fim de um momento já sendo o começo do outro, foi muito louco!

Não mexi em nada, não editei nada e não pus nenhum efeito, ouçam aí levando tudo isso em consideração, não é nada acabado, só uma brincadeira minha.





O fim era pra ser o começo de outra coisa, um momento mais Brasil, mas aí cansei...

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First Post

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Well... everybody has a blog, and I often read them.

While reading and being inspired by a Jeanne Lovetri's post on singing, I thought to myself that I might have things to say about life and about art, things that other people might want to read but most important things that I want to express, to formulate, to organize in my mind through writing.

Maybe then I won't bother my friends so much with my talking...(hahaha)

But why start it in English?

Maybe because sometimes when I talk to myself I do it in English, a reminescence of Jamaican times I guess, (the year I lived there was probably the most defining in my life), or just a colony complex, this feeling that things sound cooler in other languages, like French and English, I personally love portuguese, it's a fascinating language, my language. But English does something to the way I feel, I miss talking with other people in it.

Also I was feeling inspired by a blog I was reading in English...

Well, I just felt like doing it! And so much of what I do is aimed at other people needs, like teaching for example, that I feel I need to do stuff I want, to figure out things I wanna do and do them, that is an important part of being an artist and I have been neglecting that for a long time. I want this blog to be for me (but I hope others might be interested in it). There's a pro though, foreigners will be able to read it, and it's also good practice for brazilians studying the language.

Probably my other posts will be in Portuguese, I don't know... I also don't know if anyone will care to read this kind of personal posts... but I'll write about more interesting stuff next time.

I guess that's it. If anyone reads this, thank you!!!
Leave a comment, it will be a first for me!

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